quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

Gilgug (Outubro de 2009)

Habitava um estranho barco. Navegava nas águas, ou ancorava nas margens, do Mar Central, designação arcaica que insistia em utilizar, sempre que se permitia dispender algum tempo em devaneio. Alimentava-se do que pescava, de algumas algas cujo sabor apreciava e de fruta, sempre que a podia colher.
Costumara embarcar sem destino ou função definidos, plenamente confiante na sua capacidade de trabalho braçal e nas suas excepcionais condições de saúde. O fluir dos tempos tornou-o solitário e desligado, sendo a comunicação com os seus semelhantes progressivamente mais penosa, até dolorosa.
Tal desconforto levou-o a construir o seu estranho barco e, depois, a optar por não utilizar a voz para comunicar. A ausência de comunicação, primeiro verbal e depois total, aliada ao estado de existência solitária, ou, de forma mais correcta, o "estado sozinho", eram-lhe confortáveis. Dir-se-ia que a vida de nómada do Mar, errando sem pressa nem desejo, lhe mantinha a psique longe da tristeza e da felicidade. E muito longe da dor e do prazer. De um modo gradual e suave, deixou de acostar às zonas com maior fixação humana, nunca ousando abandonar os limites das águas que considerava senhoras da sua existência.
Um dia em que navegava indolente e afastado da costa ocidental, foi perturbado pela presença de um enorme barco de aspecto sinistro. De um dos bordos deste, desceu um bote de côr e textura desconhecidas, com um grupo de homens vestidos de igual no seu interior. Estes aproximaram-se da sua embarcação de madeira de cipestre e, quando a cerca de 60 côvados, apontaram-lhe uns paus ocos e cinzentos, que lhe causaram uma sensação desconfortável.
Um dos homens tentou comunicar verbalmente com ele, mas nada compreendeu do som por ele emitido. Outro homem sugeriu-lhe, por intermédio de gestos, que levantasse os braços e achou sensato obedecer à indicação. Os homens abordaram o seu barco. Aquele que gesticulara aproximou-se cautelosamente e estendeu-lhe uma estranha túnica, com espaço para os braços e um forte odor a pez. Aceitou a túnica com gravidade, vestiu-a e apreciou o facto de o homem ter voltado a palma da mão direita para si.
Foi conduzido no pequeno bote com naúseas crescentes. O fedor a pez e ferrugem parecia emanar de todos os objectos que estes homens manipulavam. Embora satisfeito com o reboque do seu barco e por não terem exercido violência sobre si, não conseguiu evitar os vómitos quando foi içado para bordo da grande embarcação. Os homens, aparentemente assustados, emitiram sons entre si e decidiram levá-lo rapidamente, através de um labirinto de corredores de metal, até uma sala interior branca, que cheirava a sândalo, onde era aguardado por um homem de barba e cabelos brancos, vestido com uma túnica branca com botões.
O odor a sândalo e a alvura da sala reconfortaram-no e conseguiu recuperar o domínio das entranhas. Nesse instante, observou aquele que lhe entregara a túnica a segredar algo ao homem de barba. Este fez um gesto com a mão e emitiu alguns sons, talvez instruções para ser deixado a sós com o... prisioneiro - apesar da ausência de violência, sentia-se impotente e afigurava-se-lhe ajuizado acatar as instruções que recebia.
Uma vez a sós com o homem de barbas, reparou como este o olhou intensamente nos olhos, levantou a mão direita, de palma voltada para si e lhe sorriu. Prontamente lhe retribuiu o sorriso, pleno de alívio e satisfação.
O homem de barba e bata tomou um pequeno objecto cilíndrico e separou uma parte dele, expondo uma secção cónica curta que terminava numa fina ponta de metal. Tomou também um rectângulo de um material branco e maleável e, com o objecto pontiagudo, traçou uma forma de escrita no rectângulo branco, voltando-o para si.
Gilgug olhou para o rectângulo branco e não pôde conter uma gargalhada, surpreendendo-se com o timbre ressoante e o tom muito grave da sua voz. Embora a grafia fosse um pouco invulgar, tratavam-se, indubitavelmente, de caracteres hebraicos. Teria preferido grafia suméria, mas a comunicação estava assegurada.

sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

Meia noite em Zurugoa (Dezembro de 2006)

Vermelho 3-54081/zn estava radiante. Tinha discutido a sua tese em Sistemas de Baixa Entropia e alguns Zorbinni do Colégio Científico ficaram impressionados com a aplicabilidade dos seus resultados aos reactores de fusão nuclear. E as suas capacidades telepáticas possibilitaram a entrada como noviço na Magna Ordem Negra dos Cavaleiros Zurugo-Suastikanos. Estava ansioso por montar um cavalo hexaplóide e percorrer as Alamedas dos Colégios com a altivez típica de um membro de uma Falange Krematorial.
Acelerou a passada, pois que tinha combinado jantar com um grupo de noviços do Colégio da Mística. Mais tarde iriam todos participar na Grande Orgia do Solstício de Inverno, que se iniciava à meia noite em ponto, com um Cântico Negro de sua Anti-Santidade, o Zorbote. Deslocava-se há quase uma hora quanto uma visão lhe arrebatou os sentidos. Sentiu-se mentalmente centrado num núcleo de uma estrela e contemplava as oscilações de um plasma de hidrogénio aquecido a 100 milhões de graus Celsius, enquanto um Terror lhe invadia o Campo Consciente. Sentia a temível desolação do Nada Final como algo próximo, dir-se-ia até iminente...
A visão e todo o impacto emocional duraram apenas segundos, mas Vermelho 3-54081/zn ficou suficientemente perturbado para se dirigir a uma Cavalariça da Magna Ordem. Se conseguisse aguentar o ímpeto da sua montada, estaria na fronteira exterior do Estado Interno em cerca de uma hora. Depois pretendia cavalgar até encontrar abrigo nas cavernas do Monte Vamachara. Saudou o guarda do Colégio da Ordem e entrou na Cavalariça, onde, mais uma vez, se surpreendeu com o brilho metálico da pelagem de silício dos cavalos artificiais. Preparou a sua montada e envergou um uniforme da Falange, para alegar que se iria reunir a uma Patrulha. Trotou decidido e o estratagema funcionou com o Guarda.
Cavalgou energicamente até à fronteira e conseguiu convencer os guardas aduaneiros de que iria reforçar uma Falange Krematorial em Seidom, uma cidade mineira junto à base do Monte Vamachara. Desligou todos os sistemas de telemetria e localização e acelerou o galope para Ocidente, junto à linha do Levitador Magnético.
Chegou a Seidom às 11:45 e atalhou directamente para as encostas do Monte, para uma pequena caverna onde em criança pernoitara algumas vezes. Atravessou o pequeno bosque de cedros que ocultava parcialmente a entrada da caverna e prendeu a sua montada a um tronco retorcido próximo da fenda que dava acesso ao interior. Se estivesse certo, em breve esta morreria e ele deveria esconder todos os vestígios que o ligassem à Casta Sacerdotal. Abrigou-se na capa de Cavaleiro e aguardou a meia-noite.
O sismo fez-se sentir ainda mais forte do que esperava e aguardou cerca de cinco minutos, para que diminuisse a intensidade das radiações de comprimento de onda menor. Dirigiu-se então à entrada da caverna, donde pôde contemplar o pequeno Sol Atómico que acabara de desintegrar Zurugália, a capital do Estado Teocrático Federal de Zurugoa.

Zurugoa

O Conceito Zurugoano partiu da elaboração mental de um projecto de associação, a Associação Não Académica de Zurugoa.
Foi apresentado a um grupo de pessoas que apreciaram a bizarria do conceito e, em conjunto, transmutaram-no em Sociedade Iniciática.
Elaboraram-se leis que os iniciados deviam respeitar, criaram-se designações para os iniciados (zorbinnus, plural zorbinni) e os zorbinni designaram um deles como o Zorbote (sumo-zorbinnus). Tambem se definiram (vagamente...) os Ritos Iniciáticos.
Durante este período do Conceito Zurugoano, foi redigido um documento contendo as Leis e a Lista de Iniciados.
Postulou-se, como axioma, que os Iniciados, à data de redacção do documento, tinham sofrido uma Iniciação Colectiva, simultânea e espontânea, que se denominou Zorbinação Espontânea Ab-Initio.
Posteriormente, Zurugoa passou a designar um Estado Virtual, o Estado Teocrático Federal de Zurugoa (E.T.F.Z.), compreendendo dois estados federados:
O Estado Interno:
Uma cidade-estado, sede dos Poderes Legislativo, Executivo, Judicial e Informativo, exercidos pela comunidade de Iniciados.
O Estado Externo:
Território onde funcionariam as estruturas de suporte da Federação (terrenos agrícolas, indústrias, serviços, etc.) e onde residiria a população não-iniciada.
Sendo um estado teocrático, o governo seria exercido por uma classe sacerdotal, pressupondo uma religião. A Religião de Estado de Zurugoa foi pensada sem divindades.
Durante esta fase do conceito, foram elaborados um documento versando a orgânica do estado e duas compilações de aforismos.
Os quatro documentos fundamentais de Zurugoa constituem o Tetragramaton Zurugoae, têm existência física e encontram-se, ainda hoje, na posse dos zorbinni.
Existe, embora inactivo desde Janeiro de 2006, o blog Zurugoa, definido como Embaixada de Zurugoa.

quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

Armilar Blindada (Janeiro de 2009)

Carlos observava os cambiantes de luz difundidos pela vegetação do edifício passivo em frente à parada. O Marechal Monteiro Silva, Ministro (e comandante) da Milícia Lusitana, debitava mais um dos seus discursos enfadonhos e agressivos:
-... sois a Vanguarda de Choque da República Militar da Lusitânia, é vosso mister defender o Estado...
A mente de Carlos desligou daquela verborreia e vagueou pelas memórias próprias e pelos conhecimentos da história dos últimos oitenta anos. A subida ao poder dos militares, em 2014. A troca do Arquipélago da Madeira pela Galiza, num Acordo Histórico com Espanha, em 2015. O regresso da pena de morte e a introdução do Estado Militar, em Dezembro desse mesmo ano. E as execuções públicas de Alberto João Jardim, Paulo Portas, Vítor Constâncio e Carlos César, em 2016, após a revogação da Autonomia dos Açores...
Em 2017, com a conivência da União Europeia, a antiga denominação do país foi abolida. E a antiga bandeira abandonada, sendo adoptada a Armilar Blindada: um fundo preto, um círculo azul da prússia com três setas a 120º (uma das quais deveria apontar para cima) e a esfera armilar a dourado, no interior do círculo.
-... a educação laica e orientada para a ciência e tecnologia, os incrementos na taxa de natalidade, os reatores biológicos e de fusão nuclear...
O discurso continuava, mas agora Carlos prestava-lhe mais atenção. O regime militar tinha adoptado um modelo monopartidário, mas tinha apostado fortemente no desenvolvimento tecnológico, apoiado num tecido empresarial forte. E a receita improvável tinha resultado.
A Lusitânia deixara de utilizar petróleo em 2025. Exportava chips de papel, têxteis de plástico, superfícies funcionalizadas e outros produtos nanotecnológicos. E tinha uma estrutura demográfica jovem, que recordava o Irão, antes da Guerra de Damasco ter transformado o Médio Oriente num deserto radioactivo.
-... a defesa do Ocidente, em articulação com outros exércitos da Confederação Altântica...
A última frase do Marechal conduziu Carlos, numa disposição mais sombria, ao rescaldo da Guerra de Damasco e ao colapso da União Europeia, em 2037. A Islândia, a Irlanda e a Grã-Bretanha eram agora os Estados Insulares Orientais, os três novos estados dos Estados Unidos da América. A Noruega, a Suécia e a Finlândia fundiram-se na República de Thulé, a Rússia ocupava agora todo o território da antiga União Soviética e a Suíça tinha um cantão Israelita.
-Aproximar à Bandeira!
Era o momento do Juramento de Bandeira dos novos recrutas. Carlos deu os três passos protocolares em direcção ao mastro, bateu a bota e estendeu o braço direito a 45º, com o punho fechado.
Um colectivo numeroso de vozes proferiu o "Juro!" e dispersou.
Alguns iriam ser destacados para a Linha Ibérica, ao longo dos Pirinéus, onde a fronteira entre Espanha e o Califado Franco-Germano era mantida a ferro e fogo. Outros, menos afortunados, integrariam a Helvetia Defence Force...

terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

Questões sobre Gaza, 2009

Após comentários no Jugular e no Crónicas das horas perdidas, algumas questões para reflexão:
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1. Onde estavam as vozes indignadas com a agressão e a assimetria de meios em 2007, quando o Exército Libanês cercou Nahr al-Bared e matou cerca de 300 palestinos?
2. Onde estavam elas quando, após a destituição do governo por Abbas, o Hamas se resolveu por um golpe de estado, ao qual se seguiram execuções de membros da Fatah?
3. Porque é que não causa indignação a Síria e o Irão financiarem rockets em vez de saúde e educação laica?
4. Porque é que Miguel Portas não visita casas destruidas por rockets do Hamas?
5. Porque é que raparigas na Holanda são agredidas na rua por jovens muçulmanos, em ataques sectários, motivados pelo ódio misógino e anti-ocidental que, cada vez mais, emana das Madrassas?
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A guerra é suja, mata inocentes e nem sempre é cirúrgica e tecnológica (só os EUA têm orçamentos para esse tipo de intervenção militar).
E quanto às extremas-direitas (caucasianas, católicas, hebraicas, islâmicas ou de outra qualquer matriz étnica, religiosa ou política), já todos devíamos estar aptos a reconhecê-las (facilmente e sem ambiguidades) e a sentir repúdio por elas.
Indo mais além, é mister de quem se diz democrata, liberal ou adepto do progresso da Humanidade, estar pronto a combater a ignorância e intolerância inerentes às extremas-direitas, pois para espasmos no braço direito, Hitler e Estaline foram mais do que suficientes.
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Na sequência, este post notável.

quinta-feira, 6 de Novembro de 2008

A segunda morte (Novembro de 2008)

Esther vivia numa vivenda pequena, com um jardim cuidado e um canteiro de ervas de cheiro nas traseiras. Morava com dois gatos, que acolhera após a morte de uma amiga num acidente de mota.
Desde muito nova que ajudava as senhoras da vila com os preparados de ervas para a saúde e os sofrimentos da alma, pois desde a noite dos tempos que fora esse o mister das mulheres da sua família.
Os homens tinham-lhe um respeito temeroso, pois sabiam do sucesso dela em quebrar encantos fora dos casamentos e em afastar da taberna os mais atreitos ao petisco bem regado.
Até o Cónego a evitava, receoso daqueles olhos verdes e luminosos, que, quando sobre alguém pousavam, impediam o movimento e arrancavam os segredos mais íntimos. O Cónego cismava frequentemente em apresentar o caso à Diocese, para que fosse encaminhado à Congregação para a Doutrina da Fé, mas o Bispo, menos retrógado que ele, desaconselhava-o imperativamente, pois Esther era respeitável e respeitada na comunidade.
Esther nunca pedira o Dom, antes o aceitara nobremente. Ajudava alegremente as pessoas da vila, mas havia dias em que preferia não conseguir imagens das almas alheias. Há coisas dentro das pessoas que lá devem permanecer incógnitas. Que sujam a paz de quem as vislumbra.
Aproximava-se a altura de ter uma filha. Não sabia quem iria ser o pai, tal como nunca conhecera o seu. As mulheres da sua família encontravam-se com alguém que lhes gerava uma filha. E tal ocorria invariavelmente aos 28 anos de idade, que Esther tinha completado há quase dois meses.
Uma noite, bateram-lhe à porta. Apesar de os gatos se assanharem, Esther ignorou-os e foi abrir. Um homem ferido no abdómen equilibrava-se precariamente na soleira. Pediu ajuda com voz débil e perdeu os sentidos ali mesmo.
Esther carregou-o para o seu quarto, libertou-o das roupas e examinou a ferida. Um golpe fundo de navalha, no lado direito do ventre, que sangrava abundantemente. Observou que nenhum orgão vital tinha sido atingido e foi ferver um preparado cicatrizante. Aplicou-lhe um cataplasma sobre a ferida, colocou-lhe um pano húmido sobre a testa, pois o homem estava ligeiramente febril, e deixou-o descansar, velando-o na cadeira de baloiço que tinha no quarto.
Enquanto o velava, lembrou-se que não reparara nos olhos do homem. Tudo fora muito rápido e ele estava de cabeça curvada, apenas notou uma suavidade sofrida na sua voz. E agora observava-lhe as linhas do rosto, bonitas e invulgares, o cabelo ruivo bem cuidado e a pele suave ao olhar, levemente morena. Era um homem com muita presença e dotado de uma beleza exótica. Talvez fosse este o pai da criança que em breve iria carregar no ventre... Tinha que lhe mergulhar no olhar.
Adormeceu. Sonhou com uma fila de mulheres com olhos de luz e cabelos banhados pelo luar, que a olhavam com gravidade.
O homem acordou de manhã e pigarreou. Esther acordou também e trocaram olhares. Os olhos dele eram verdes, ainda mais luminosos do que os dela. E quando neles mergulhou apenas viu amor, chamas e a fila de mulheres. Esther soube que era ele o pai da criança que iria dar à luz.
Aproximou-se dele e tomou-lhe as mãos sem hesitar. O homem sorriu-lhe e os seus olhos faiscaram. Examinou o local onde estivera a ferida e apenas viu uma cicatriz bem desenhada e antiga. Olhou-o espantada, mas a luz nos olhos do homem e o sorriso franco que lhe aflorou os lábios trouxeram-lhe paz.
Desejou-o súbita e ardentemente.
O homem envolveu-a num abraço e beijou-a com ternura e intensidade. As roupas voaram e Esther sentiu o homem entrar dentro dela. As mãos entrelaçaram-se e Esther olhou-o nos olhos. Os seus olhos tornaram-se duas chamas verde-esmeralda e Esther deixou de se conseguir mover. O membro do homem cresceu de forma tremenda e começou a rasgar Esther por dentro. Ela perguntava porquê com o olhar, mas as chamas verdes diziam-lhe para não se mexer, diziam-lhe para se submeter.
Esther viu com horror como a pele dele se tornou escarlate e como uma rubra cauda, de ponta triangular, surgiu por trás dele, agitando-se com violência e tamanho crescentes.
O quarto inflamou-se e o telhado explodiu com um som de sino, deixando Esther ver um céu verde esmeralda, nem Noite nem Dia, pontilhado de lúguebres estrelas negras.
Quando o Demónio atingiu o orgasmo, jorrou lava líquida nas entranhas de Esther e, com as chamas do seu olhar, disse-lhe que no Inferno a mataria novamente.

segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

Triângulos [Negros Mundos 3] (Maio de 2005)

-A transmissão apresenta oscilações de Campo. É seguro proceder ao envio e recepção do Triângulo?
-É absolutamente necessário receber o Triângulo, para reiterar o Acordo com Cygnus!!
Proceda como estipulado, OhCE 113
-Afirmativo, OzCE 28.
Os 2 seres semi-mecânicos atarefavam-se com as condições de recepção no Singularity Pit 2 e a ocasião não era para menos... O novo acordo com os Zuruth de Cygnus permitiria à Estrutura ganhar uma posição galáctica estável face à Liga Aleph-Terrabinariana e possibilitaria assumir, finalmente, o controlo sobre a Rede Transgaláctica de Teleporters.
Era também a primeira vez que se se utilizava o sistema de monitorização Real-Time para Tubos-Worm... A pressão de sucesso era muito elevada.
-Quadrado?!!
-REVERTE O TUBO IMEDIATAMENTE!!
-Mas???
-REVERTE TUDO JÁ!!!
-Já não há oscilações de campo, e tenho Triângulo de novo.
-JÁ ESTAMOS MORTOS, SEU INCAPAZ!!!
Com efeito, a carga de singularidade colocada no Veículo Tubular por um Worm-Hacker aleph-terrabinariano destruiu um triângulo, os dois seres que monitorizavam a operação, as instalações do Singularity Pit 2 e tudo o que existia num raio de 300 Km em redor delas.
O verdadeiro Triângulo encontrava-se, simultaneamente, a bordo de uma Singularity Ship, na Núvem de Oort, negociando o Acordo com Lord Zuultron, o embaixador Zuruth.
Permitir-se ser enviado para o Sistema Sírius na primeira vez que era testado o Sistema de Informação e Monitorização Real-Time, fornecido pelos Zuruth, em equipamento de teleporte da Estrutura, afigurou-se suficientemente temerário e insensato para organizar secretamente um encontro alternativo com Zuultron numa zona da Galáxia sob controlo efectivo da Estrutura: o antigo Sistema Solar.
O Triângulo sempre fora rebuscado e subtil... Desde o tempo dos Combates no Guerródromo... Dir-se-ia mesmo desde Marte...
Só persistiam duas dúvidas que ensombravam a mente complexa e calculista do Triângulo:
Qual a tecnologia utilizada pelos Neutral Pyrats?
E quais os seus objectivos estratégicos?
Para já, tais questões não possuiam interesse premente. O Acordo encontrava-se concluído. Equipamento Zuruth para Monitorização Real-Time, operações militares conjuntas contra os Neutral Pyrats e a Liga e, como contrapartida, fornecimento, pela Estrutura, de Propulsores de Singularidade Neutrev IV. O acordo era razoável. E Zuultron estava satisfeito, a avaliar pelo vermelho vivo dos seus gigantescos olhos em forma de elipse, normalmente de uma coloração negra brilhante.
Menos mal!!
Era altura de voltar para Eufrates, em Estrutura I, pois que os corpos pediam radiação gama e neutrões de decaimento, abundantes no Lago.

quinta-feira, 11 de Setembro de 2008

Instantâneos de Escárnio e Mal-Dizer

Com o cabelo apanhado e de óculos na ponta do nariz, estilo catequista, a Criacionista histriónica avançou triunfante em direcção ao palco, abominando o aborto e dando graças pela Guerra no Iraque. A multidão cantava entusiasticamente "Drill, baby, drill" e ela, de bíblia numa mão e Magnum na outra, abeirou-se do palanque.
De braço pendente, com uma carabina ao ombro e a bandeira da União pendendo-lhe em jeito de capa de super-herói, o Veterano aleijadinho, com um sorriso, acercou-se também do palanque.
Cumprimentaram-se, rezaram em palco e acabaram a saltitar pateticamente ao som de "Sweet home Alabama".
Enquanto isto, o pseudo-Messias, de sorriso publicitário na face e de microfone na mão, prometia pela enésima vez que é possível sonhar e que a mudança (?) pode acontecer, num palco dominado por um gigantesco placard, com uma única frase: "My Russian Silence".

A outra Mão da Glória (Julho de 2005)

Esgueirou-se pela janela dos seus aposentos e planou nostálgico sobre a cidade. Deleitou a perspectiva do seu campo visual com a textura dos negros troncos das árvores sem folhas e lançou um rápido olhar à Catedral de basalto que dominava a Cidade Negra.
Apertou o ângulo das suas asas sem penas e pousou à entrada de Templo do Desespero, eternamente rodeado por uma núvem de tempestade, e olhou em redor... A luminosidade verde do éter inspirava-lhe um estranho presságio e tornou a levantar vôo.
Percorreu a Alameda das Almas rente ao pavimento, ladeado pelas estátuas de chumbo, cujos olhos de hematite choravam esmeraldas. Deteve-se um momento sobre a Fonte da Dor, apreciando o jacto de água negra que dela brotava. Decidiu voltar ao recato da sua morada, perturbado pelo presságio que dominava a sua estranha existência, embora apaziguado pela paz tumular que emanava da espectral Cidade.
Tentou em vão reentrar pela janela, enquanto um miasma espesso e ominoso o envolvia. Gritou, mas apenas na sua mente o som ecoou e a imagem de uma corda com nó de forca surgiu-lhe, dando fundamento ao presságio. As asas inflamaram-se e o pescoço quebrou-se com o mortal abraço da corda.
Enquanto a consciência o abandonava, avistou um cadáver decomposto que pendia de uma forca e um corvo que levava um olho no bico.
Numa casa lúguebre à beira de um pântano sombrio, uma velha mulher lia à luz de um candelabro de cinco velas, quando estas se apagaram simultaneamente. A Mão da Glória, que jazia sobre o Pentagrama, levitou, inflamou-se e pousou novamente, enquanto emitia uma luminosidade esverdeada que lentamente se desvaneceu. As velas voltaram a acender, em simultâneo e a velha exclamou:
- Meu vingador com asas de Noite, vassalo de Astaroth, soldado de Belial! Possas tu voltar a voar e vingar, conjurado por mim, em nome daquele que reina no Negro Trono.

SS Totenkopf (Fevereiro de 2005)

O ar estava denso. E espiritualmente Negro. Era a quarta vez que Heinrich assistia à Cerimónia de Imposição das Runas SS, mas nunca se sentia preparado para o Êxtase do Sangue.
Levantou um pouco o capuz da sua capa de cabedal, e observou demoradamente a Congregação de Recrutas em absoluto silêncio e sentido, absortos nas palavras de fogo do Sacerdote Ariano, e no som de orgão sub-grave, que obrigava ao Abandono do Ego. Aquele, alto e de semblante grave, vestindo uma capa vermelho-escarlate, prosseguia o Cântico dos Senhores Negros, em voz gutural:
"Existe só uma Realidade, a Magia
Existe só uma Entidade, o Negro Espírito
Existe só uma Raça Humana, o Homem Ariano
Existe só um Fogo, o Roxo e Eterno"
Neste momento, acendeu-se uma estranha chama roxa no Altar de ónix, e a Suástica por detrás do Altar, também em ónix, começou a emitir uma luminosidade roxa e vermelha...
Era assustador saber que a Cruz Gamada era feita de ónix e nestes momentos brilhava com aqueles tons... A Magia Nazi era, de facto, poderosa!
Chegou então o Momento de Imposição das Runas. O Sacerdote Ariano destapou a cabeça, e sobre ela surgiu uma Coroa de Chamas Vermelhas, enquanto ele fitava penetrantemente a Congregação, com os seus olhos totalmente negros e cintilantes, os olhos de um Mago Pós-Humano, extensamente transformado pela Magia.
Um espasmo de puro terror percorreu a Congregação, incluindo Heinrich, que sabia o que se seguia.
O Sacerdote Ariano projectou a sua voz gutural, mas, desta feita, a voz trovejava vinda de vários pontos da Catedral, e aos seus lados esquerdo e direito concentraram-se duas núvens negras e opacas que lenta e obscenamente tomaram forma humanóide. O Mago repetia:
"A mim e aos Senhores Manifestados as vossas Vontades
Avançai e recebei a Caveira e as Runas"
E então Heinrich, num misto de horror e fascínio, observou mais uma vez como, um por um, os cadetes avançavam sem hesitar até ao altar, eram apunhalados no coração por uma das Sombras, recebiam a Caveira e as Runas em morte, da mão do Mago, e eram de novo trazidos à vida pela outra Sombra.
Estava terminada mais uma Cerimónia do Burg de Schwarzwald, e formada outra companhia de Stormtroopers SS.
A formidável Magia aliada à Tecnologia Bélica eram invencíveis. Heinrich, ele próprio, era um morto-vivo, cônscio do Sangue e da Raça, ao serviço dos Senhores Negros, pronto a percorrer os campos de batalha em nome de uma sociedade radicalmente nova, em prol de uma noção de justiça absolutamente impiedosa e cruel.
No entanto...
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Tributo a Arthur Machen, inspirado na frase proferida por "Ambrose" ("A Feitiçaria e a Santidade, eis as únicas Realidades."), in "The White People".

segunda-feira, 8 de Setembro de 2008

O Surfista Atlante (Maio de 2008)

Golyan foi dos últimos da sua raça, a quarta, a abandonar Poseidon, pois sempre se sentira em sintonia mental com a informação contida nas águas moduladas das Lagoas Herméticas.
E, na altura da Grande Escolha, fora dos poucos a permanecer em Gaya. Sempre adorara as águas do Oceano do Meio e a instabilidade tectónica crescente permitia-lhe agora sublimes momentos de deslize na crista das vagas alterosas, sob um céu de chumbo e fogo.
Nunca se revira na interacção que a Nação Atlante estabelecera com as outra espécies sencientes, baseada na supremacia mística, científica e tecnológica. Não se sentia um orgulhoso Atlante, apenas lamentava o inevitável naufrágio do continente. Nutria até um desagrado mental quer pela postura altiva dos seus semelhantes, Dourados, Vermelhos ou Brancos, quer pelo tom soturno com que encaravam o fim de uma era.
Este sentimento, que resultava num afastamento dos outros e numa postura solitária, evoluia desde criança e sempre fora alvo da censura dos seus pedagogos, encaminhando-o para uma formação em Mística Quântica, apenas conducente à colocação nas Lagoas Herméticas e invariavelmente subordinado a um Informático e a um Físico-Matemático, pois as Tríades Operacionais eram constituidas por estes elementos, ordenados por esta hierarquia. Estas, de constituição vitalícia, constituiam o elemento biológico senciente operacional nas Lagoas Herméticas, gerando a Tri-Mente. A estabilidade e eficácia operacional das Tri-Mentes eram rigorosamente garantidas pelo Templo Eugénico, que detinha absoluta autoridade sobre a escolha de elementos e composição das Tríades Operacionais, sendo a cerimónia do Juramento de Hermes um dos momentos mais solenes na vida de um "Atlante das Lagoas", expressão descontraída que designava genericamente esta comunidade místico-científica.
A sorte bafejara a sua Tríade, pois não só era das mais eficazes nos últimos 400 Ciclos de Gaya, como existia uma genuína amizade entre os seus membros. Os Sacerdotes-Cientistas do Templo Eugénico comentavam em tom semi-jocoso que o facto de esta Tríade Operacional ser constituída por um Branco, uma Vermelha e um Dourado - algo que não era visto há mais de 35 hectociclos - assegurava o invulgar sentimento de amizade que Aryan, Rubyria e Golyan partilhavam. E estes desprezavam as tentativas de racionalização dos seus superiores hierárquicos, que classificavam como mais uma das típicas manifestações da arrogância Atlante, pois todos sabiam da secreta inveja que aqueles nutriam pela excepcional relação de amizade que mantinham com Nemon X-409, um imortal da Raça Azul.

Três contos publicados

Em Maio de 2008, foi lançado o número 4 da revista literária Callema, onde os contos "DOIS SORRISOS", "TEUTON XXIV" e "O LAGO" foram publicados.
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(Pode aceder ao site da Cooperativa Literária, entidade responsável pela edição da revista, clicando na imagem ou utilizando o link na barra lateral)

Conto publicado

Em Junho de 2007 foi lançado o número 2 da revista literária Callema, onde o conto "ELOHIM", da série "NEGROS MUNDOS" foi publicado.
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(Pode aceder ao site da Cooperativa Literária, entidade responsável pela edição da revista, clicando na imagem ou utilizando o link na barra lateral)

Algumas ideias políticas sobre Portugal e a Europa

i) Abolição da proibição de negar o Holocausto, de usar a cruz suástica e de outras proibições ridículas impostas pelas autoridades europeias [liberdade de expressão], uma reforma democrática profunda das instituições europeias, demasiado burocráticas e ineficazes quando têm que lidar com a barbárie dentro da sua esfera de influência, criação das Forças Armadas Europeias, adopção do Inglês como Língua Europeia de comunicação, de forma inequívoca e avanço para o Modelo Confederado.
ii) Redefinição e coordenação das forças de segurança. Portugal precisa de um serviço secreto em condições e de uma força armada unitária, de pendor naval (os verdadeiros inimigos são os tráficos marítimos vários e, neste momento, a Extrema Direita Islâmica, logo, necessitamos de meios de patrulhamento, busca e salvamento marítimo rápidos e bem armados, de uma força territorial de carácter misto entre o Bombeiro Profissional e o Soldado de infantaria e de um verdadeiro serviço de segurança. Quanto às polícias, implementar o CODIS e o cruzamento de dados, salvaguardando as liberdades individuais).
iii) Possibilidade de casamento civil e candidatura à adopção para os casais homossexuais. Muita gente acha um piadão ao José Castelo Branco, mas prefere a Casa Pia à adopção...
iv) Educação pública de qualidade, pois o défice persiste desde o ínicio do século passado, com ênfase no ensino rigoroso e exigente de Português, Inglês e Matemática. A Física, a Química e a Biologia, deveriam ser também alvo de atenção especial, pois contribuem para a formação base nas áreas de desenvolvimento tecnológico que vou propôr adiante, no ponto viii). Acesso credível ao ensino de mais uma língua europeia e de Mirandês, pois Portugal é oficialmente bilingue, e abandono do Acordo Ortográfico, por motivos filológicos. A língua tem uma acentuação neutra peculiar, está aproximada ao latim e assume duas grafias oficiais.
v) Combate credível ao crime económico e às associações criminosas.
vi) Despenalização total de todas as drogas, o que conduziria a uma redução sem precedentes do crime.
vii) Condenação à experimentação humana, para crimes de sangue e em determinadas situações. Quem rouba uma vida, veria a sua dedicada à Ciência e ao progresso da qualidade de vida dos demais.
viii) Implementação de energias renováveis, avanço para a produção de petróleo sintético a partir de resíduos urbanos, agrícolas e florestais, produção de metano em reactores biológicos e produção industrial de hidrogénio. Relocalização do Instituto de Tecnologia Nuclear no Distrito da Guarda, próximo das minas de urânio, onde seria responsável pela descontaminação da área. A exploração do minério e a produção de combustível nuclear para exportação poderiam ser equacionadas no âmbito de empresas privadas, focando-se o esforço público na fusão nuclear (O Instituto deveria manter um reactor de fusão por implosão LASER ou FEASER, um reactor de confinamento magnético e unidades de produção de radioisótopos para aplicação em Medicina Nuclear).
ix) Saude pública de qualidade e empresas privadas de saúde credíveis. O utente optaria, de acordo com os seu rendimentos.
x) Assistência ao Trabalho em vez de Segurança social, com diminuição da intervenção pública em prol do funcionamento das famílias alargadas. A máxima de Confúcio sobre a cana de pesca ainda é válida.
xi) Abandono da PAC, que só defende a agricultura de alguns países e regresso à produção de cereais e constituição de stocks, pois Portugal ainda têm as estruturas de armazenamento.
xii) Revogação do estatuto fiscal de excepção ao Arquipélago da Madeira e perspectivação da independência do território, após pagamento integral da dívida.

Declaração de (re)abertura

A disponibilidade do endereço e o desaparecimento de um blog onde estavam reunidos textos de um grupo de bloggers (o Círculo-Narrativa), que constituiam os capítulos de um romance policial incompleto (A Caixa - Uma Blog Story), levaram-me a recriar L'Chaim Shedim, o meu primeiro blog.
Aqui poderão encontrar, entre outros, links para blogs de alguns membros ainda activos do grupo supracitado.
Neste blog, a publicação de textos será permanente, excepto quando estiverem envolvidos direitos de publicação.
Cumprimentos.