sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Meia noite em Zurugoa (Dezembro de 2006)

Vermelho 3-54081/zn estava radiante. Tinha discutido a sua tese em Sistemas de Baixa Entropia e alguns Zorbinni do Colégio Científico ficaram impressionados com a aplicabilidade dos seus resultados aos reactores de fusão nuclear. E as suas capacidades telepáticas possibilitaram a entrada como noviço na Magna Ordem Negra dos Cavaleiros Zurugo-Suastikanos. Estava ansioso por montar um cavalo hexaplóide e percorrer as Alamedas dos Colégios com a altivez típica de um membro de uma Falange Krematorial.
Acelerou a passada, pois que tinha combinado jantar com um grupo de noviços do Colégio da Mística. Mais tarde iriam todos participar na Grande Orgia do Solstício de Inverno, que se iniciava à meia noite em ponto, com um Cântico Negro de sua Anti-Santidade, o Zorbote. Deslocava-se há quase uma hora quanto uma visão lhe arrebatou os sentidos. Sentiu-se mentalmente centrado num núcleo de uma estrela e contemplava as oscilações de um plasma de hidrogénio aquecido a 100 milhões de graus Celsius, enquanto um Terror lhe invadia o Campo Consciente. Sentia a temível desolação do Nada Final como algo próximo, dir-se-ia até iminente...
A visão e todo o impacto emocional duraram apenas segundos, mas Vermelho 3-54081/zn ficou suficientemente perturbado para se dirigir a uma Cavalariça da Magna Ordem. Se conseguisse aguentar o ímpeto da sua montada, estaria na fronteira exterior do Estado Interno em cerca de uma hora. Depois pretendia cavalgar até encontrar abrigo nas cavernas do Monte Vamachara. Saudou o guarda do Colégio da Ordem e entrou na Cavalariça, onde, mais uma vez, se surpreendeu com o brilho metálico da pelagem de silício dos cavalos artificiais. Preparou a sua montada e envergou um uniforme da Falange, para alegar que se iria reunir a uma Patrulha. Trotou decidido e o estratagema funcionou com o Guarda.
Cavalgou energicamente até à fronteira e conseguiu convencer os guardas aduaneiros de que iria reforçar uma Falange Krematorial em Seidom, uma cidade mineira junto à base do Monte Vamachara. Desligou todos os sistemas de telemetria e localização e acelerou o galope para Ocidente, junto à linha do Levitador Magnético.
Chegou a Seidom às 11:45 e atalhou directamente para as encostas do Monte, para uma pequena caverna onde em criança pernoitara algumas vezes. Atravessou o pequeno bosque de cedros que ocultava parcialmente a entrada da caverna e prendeu a sua montada a um tronco retorcido próximo da fenda que dava acesso ao interior. Se estivesse certo, em breve esta morreria e ele deveria esconder todos os vestígios que o ligassem à Casta Sacerdotal. Abrigou-se na capa de Cavaleiro e aguardou a meia-noite.
O sismo fez-se sentir ainda mais forte do que esperava e aguardou cerca de cinco minutos, para que diminuisse a intensidade das radiações de comprimento de onda menor. Dirigiu-se então à entrada da caverna, donde pôde contemplar o pequeno Sol Atómico que acabara de desintegrar Zurugália, a capital do Estado Teocrático Federal de Zurugoa.

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