quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Armilar Blindada (Janeiro de 2009)

Carlos observava os cambiantes de luz difundidos pela vegetação do edifício passivo em frente à parada. O Marechal Monteiro Silva, Ministro (e comandante) da Milícia Lusitana, debitava mais um dos seus discursos enfadonhos e agressivos:
-... sois a Vanguarda de Choque da República Militar da Lusitânia, é vosso mister defender o Estado...
A mente de Carlos desligou daquela verborreia e vagueou pelas memórias próprias e pelos conhecimentos da história dos últimos oitenta anos. A subida ao poder dos militares, em 2014. A troca do Arquipélago da Madeira pela Galiza, num Acordo Histórico com Espanha, em 2015. O regresso da pena de morte e a introdução do Estado Militar, em Dezembro desse mesmo ano. E as execuções públicas de Alberto João Jardim, Paulo Portas, Vítor Constâncio e Carlos César, em 2016, após a revogação da Autonomia dos Açores...
Em 2017, com a conivência da União Europeia, a antiga denominação do país foi abolida. E a antiga bandeira abandonada, sendo adoptada a Armilar Blindada: um fundo preto, um círculo azul da prússia com três setas a 120º (uma das quais deveria apontar para cima) e a esfera armilar a dourado, no interior do círculo.
-... a educação laica e orientada para a ciência e tecnologia, os incrementos na taxa de natalidade, os reatores biológicos e de fusão nuclear...
O discurso continuava, mas agora Carlos prestava-lhe mais atenção. O regime militar tinha adoptado um modelo monopartidário, mas tinha apostado fortemente no desenvolvimento tecnológico, apoiado num tecido empresarial forte. E a receita improvável tinha resultado.
A Lusitânia deixara de utilizar petróleo em 2025. Exportava chips de papel, têxteis de plástico, superfícies funcionalizadas e outros produtos nanotecnológicos. E tinha uma estrutura demográfica jovem, que recordava o Irão, antes da Guerra de Damasco ter transformado o Médio Oriente num deserto radioactivo.
-... a defesa do Ocidente, em articulação com outros exércitos da Confederação Altântica...
A última frase do Marechal conduziu Carlos, numa disposição mais sombria, ao rescaldo da Guerra de Damasco e ao colapso da União Europeia, em 2037. A Islândia, a Irlanda e a Grã-Bretanha eram agora os Estados Insulares Orientais, os três novos estados dos Estados Unidos da América. A Noruega, a Suécia e a Finlândia fundiram-se na República de Thulé, a Rússia ocupava agora todo o território da antiga União Soviética e a Suíça tinha um cantão Israelita.
-Aproximar à Bandeira!
Era o momento do Juramento de Bandeira dos novos recrutas. Carlos deu os três passos protocolares em direcção ao mastro, bateu a bota e estendeu o braço direito a 45º, com o punho fechado.
Um colectivo numeroso de vozes proferiu o "Juro!" e dispersou.
Alguns iriam ser destacados para a Linha Ibérica, ao longo dos Pirinéus, onde a fronteira entre Espanha e o Califado Franco-Germano era mantida a ferro e fogo. Outros, menos afortunados, integrariam a Helvetia Defence Force...
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Publicado no Vai uma gasosa?

2 comentários:

ejsantos disse...

Ai Jesus Amigo! Que pesadelo de futuro.
Se bem que a referência ao deserto radioactivo não me surpreenda...
Um abraço

DJ Funkat disse...

lindo!!!