quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A segunda morte (Novembro de 2008)

Esther vivia numa vivenda pequena, com um jardim cuidado e um canteiro de ervas de cheiro nas traseiras. Morava com dois gatos, que acolhera após a morte de uma amiga num acidente de mota.
Desde muito nova que ajudava as senhoras da vila com os preparados de ervas para a saúde e os sofrimentos da alma, pois desde a noite dos tempos que fora esse o mister das mulheres da sua família.
Os homens tinham-lhe um respeito temeroso, pois sabiam do sucesso dela em quebrar encantos fora dos casamentos e em afastar da taberna os mais atreitos ao petisco bem regado.
Até o Cónego a evitava, receoso daqueles olhos verdes e luminosos, que, quando sobre alguém pousavam, impediam o movimento e arrancavam os segredos mais íntimos. O Cónego cismava frequentemente em apresentar o caso à Diocese, para que fosse encaminhado à Congregação para a Doutrina da Fé, mas o Bispo, menos retrógado que ele, desaconselhava-o imperativamente, pois Esther era respeitável e respeitada na comunidade.
Esther nunca pedira o Dom, antes o aceitara nobremente. Ajudava alegremente as pessoas da vila, mas havia dias em que preferia não conseguir imagens das almas alheias. Há coisas dentro das pessoas que lá devem permanecer incógnitas. Que sujam a paz de quem as vislumbra.
Aproximava-se a altura de ter uma filha. Não sabia quem iria ser o pai, tal como nunca conhecera o seu. As mulheres da sua família encontravam-se com alguém que lhes gerava uma filha. E tal ocorria invariavelmente aos 28 anos de idade, que Esther tinha completado há quase dois meses.
Uma noite, bateram-lhe à porta. Apesar de os gatos se assanharem, Esther ignorou-os e foi abrir. Um homem ferido no abdómen equilibrava-se precariamente na soleira. Pediu ajuda com voz débil e perdeu os sentidos ali mesmo.
Esther carregou-o para o seu quarto, libertou-o das roupas e examinou a ferida. Um golpe fundo de navalha, no lado direito do ventre, que sangrava abundantemente. Observou que nenhum orgão vital tinha sido atingido e foi ferver um preparado cicatrizante. Aplicou-lhe um cataplasma sobre a ferida, colocou-lhe um pano húmido sobre a testa, pois o homem estava ligeiramente febril, e deixou-o descansar, velando-o na cadeira de baloiço que tinha no quarto.
Enquanto o velava, lembrou-se que não reparara nos olhos do homem. Tudo fora muito rápido e ele estava de cabeça curvada, apenas notou uma suavidade sofrida na sua voz. E agora observava-lhe as linhas do rosto, bonitas e invulgares, o cabelo ruivo bem cuidado e a pele suave ao olhar, levemente morena. Era um homem com muita presença e dotado de uma beleza exótica. Talvez fosse este o pai da criança que em breve iria carregar no ventre... Tinha que lhe mergulhar no olhar.
Adormeceu. Sonhou com uma fila de mulheres com olhos de luz e cabelos banhados pelo luar, que a olhavam com gravidade.
O homem acordou de manhã e pigarreou. Esther acordou também e trocaram olhares. Os olhos dele eram verdes, ainda mais luminosos do que os dela. E quando neles mergulhou apenas viu amor, chamas e a fila de mulheres. Esther soube que era ele o pai da criança que iria dar à luz.
Aproximou-se dele e tomou-lhe as mãos sem hesitar. O homem sorriu-lhe e os seus olhos faiscaram. Examinou o local onde estivera a ferida e apenas viu uma cicatriz bem desenhada e antiga. Olhou-o espantada, mas a luz nos olhos do homem e o sorriso franco que lhe aflorou os lábios trouxeram-lhe paz.
Desejou-o súbita e ardentemente.
O homem envolveu-a num abraço e beijou-a com ternura e intensidade. As roupas voaram e Esther sentiu o homem entrar dentro dela. As mãos entrelaçaram-se e Esther olhou-o nos olhos. Os seus olhos tornaram-se duas chamas verde-esmeralda e Esther deixou de se conseguir mover. O membro do homem cresceu de forma tremenda e começou a rasgar Esther por dentro. Ela perguntava porquê com o olhar, mas as chamas verdes diziam-lhe para não se mexer, diziam-lhe para se submeter.
Esther viu com horror como a pele dele se tornou escarlate e como uma rubra cauda, de ponta triangular, surgiu por trás dele, agitando-se com violência e tamanho crescentes.
O quarto inflamou-se e o telhado explodiu com um som de sino, deixando Esther ver um céu verde esmeralda, nem Noite nem Dia, pontilhado de lúguebres estrelas negras.
Quando o Demónio atingiu o orgasmo, jorrou lava líquida nas entranhas de Esther e, com as chamas do seu olhar, disse-lhe que no Inferno a mataria novamente.