quinta-feira, 11 de setembro de 2008

A outra Mão da Glória (Julho de 2005)

Esgueirou-se pela janela dos seus aposentos e planou nostálgico sobre a cidade. Deleitou a perspectiva do seu campo visual com a textura dos negros troncos das árvores sem folhas e lançou um rápido olhar à Catedral de basalto que dominava a Cidade Negra.
Apertou o ângulo das suas asas sem penas e pousou à entrada de Templo do Desespero, eternamente rodeado por uma núvem de tempestade, e olhou em redor... A luminosidade verde do éter inspirava-lhe um estranho presságio e tornou a levantar vôo.
Percorreu a Alameda das Almas rente ao pavimento, ladeado pelas estátuas de chumbo, cujos olhos de hematite choravam esmeraldas. Deteve-se um momento sobre a Fonte da Dor, apreciando o jacto de água negra que dela brotava. Decidiu voltar ao recato da sua morada, perturbado pelo presságio que dominava a sua estranha existência, embora apaziguado pela paz tumular que emanava da espectral Cidade.
Tentou em vão reentrar pela janela, enquanto um miasma espesso e ominoso o envolvia. Gritou, mas apenas na sua mente o som ecoou e a imagem de uma corda com nó de forca surgiu-lhe, dando fundamento ao presságio. As asas inflamaram-se e o pescoço quebrou-se com o mortal abraço da corda.
Enquanto a consciência o abandonava, avistou um cadáver decomposto que pendia de uma forca e um corvo que levava um olho no bico.
Numa casa lúguebre à beira de um pântano sombrio, uma velha mulher lia à luz de um candelabro de cinco velas, quando estas se apagaram simultaneamente. A Mão da Glória, que jazia sobre o Pentagrama, levitou, inflamou-se e pousou novamente, enquanto emitia uma luminosidade esverdeada que lentamente se desvaneceu. As velas voltaram a acender, em simultâneo e a velha exclamou:
- Meu vingador com asas de Noite, vassalo de Astaroth, soldado de Belial! Possas tu voltar a voar e vingar, conjurado por mim, em nome daquele que reina no Negro Trono.

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